Orgulhosos, pais de Marinho veem santista superar tormentas da infância

Jogador alagoano foi eleito o melhor das américas na temporada 2020

Marinho já foi esquecido. Por volta dos cinco ou seis anos de idade, seu pai, José Carlos, levou o garoto e a irmã mais velha, Cristiane, para um bar pela manhã.
Ele bebeu até de noite e quis voltar com os filhos em cima da bicicleta, mas ninguém deixou. Ao chegar sozinho em casa, José Carlos achou que tudo estava bem. Foi apenas na madrugada que deu falta das crianças, e só na manhã seguinte os encontrou, no mesmo lugar em que havia deixado.
A história, contada à Folha pelo próprio José Carlos, ilustra as dificuldades que o grande nome do elenco santista, finalista da Libertadores, viveu durante a infância em Penedo, cidade de aproximadamente 65 mil habitantes no interior de Alagoas.
O atacante de 30 anos driblou muita coisa para crescer no futebol e não volta para a cidade-natal desde 2008, quando deu uma casa aos pais.
Quando mais novo, Marinho despistava a mãe, Eliene, para tocar bateria no quintal de casa. Ele e Cristiane, dois anos mais velha, pegavam as panelas da cozinha e montavam o “instrumento”.
Os momentos de carinho dentro da família não eram tão comuns. O pai ainda lamenta as situações em que esteve longe dos filhos por causa do alcoolismo. Já a mãe trabalhava o dia inteiro em um hospital, como lavadeira. As crianças eram cuidadas por vizinhos ou colegas da família. Quando Cristiane ficou mais velha, ela se tornou responsável por Marinho.
Eliene é avessa a entrevistas, mas gosta de falar do filho como um homem que venceu a distância, a solidão e os oponentes mais velhos pelos quais tinha que passar para conquistar qualquer espaço que fosse nos times de futebol de Penedo. Hoje, ela chora quando vê o jogador cair em campo e sofre com ele nas derrotas.
“Meu filho é a força do homem nordestino, porque nunca quer perder. Se está dando o suor, ele quer ganhar. Você percebe que, quando o Santos perde, ele fica mal, fica doente em campo. O que faltou de carinho, ele superou na vida. É um grande homem, um ótimo filho, uma pessoa presente na nossa vida. E nós tentamos retribuir isso a ele sempre”, diz a mãe, emocionada.
Eliene e José Carlos são casados há mais de 40 anos e têm em Penedo a sua moradia. Viviam em um bairro pobre, sem muitas condições, e Marinho os desafiava quando fugia das aulas para jogar futebol e voltava todo sujo para casa, cheio de areia nas roupas.
Apesar disso, ele sempre prometeu à mãe que lhe daria uma casa quando tivesse sucesso como jogador. Sua primeira viagem interestadual da vida foi quando saiu de Alagoas para Santos, mas na época o adolescente de 17 anos não se adaptou ao time pelo qual brilha atualmente e ficou somente por um mês.
“Eu acho que ele sentiu a distância, a saudade, e o clima lá no Santos não ajudou ele a ficar”, relata o pai.
Depois do Santos, Marinho foi para o Fluminense. Por lá, fez parte da base e se profissionalizou em 2008. Depois, vieram uma lista de clubes na carreira do alagoano, dentre eles Internacional, Náutico, Ceará, Cruzeiro, Vitória, o chinês Changchun Yatai, Grêmio e enfim novamente o Santos.
A distância entre Penedo, no interior de Alagoas, e a cidade do litoral paulista é de quase 1.900 quilômetros. Marinho decidiu não a percorrer mais desde 2008, quando presenteou os pais com a casa. Apesar disso, eles contam que o filho sempre fala sobre voltar à cidade quando sobrar um tempo nas férias.
Nas redes sociais, o jogador costuma se lembrar de momentos do Penedense, republicando uma foto antiga com a camisa do clube. Mas, quando está em descanso, geralmente prefere ficar em Salvador com a família. Aí todo mundo se junta.

Marinho nas categorias de base do Penedense


Apesar da distância física, o jogador mantém os familiares financeiramente e não quer que os pais trabalhem. Mantém contato por telefone e manda a eles o que precisam. José Carlos anda por campos de futebol da região observando possíveis talentos, e Eliene cuida da casa. Cristiane tem duas filhas e seguiu o caminho da mãe, trabalhando em hospital. Marinho é apegado às sobrinhas.
“Meu filho, infelizmente, deve ter sofrido, porque nós não demos carinho a ele. A mãe trabalhava e eu estava sempre bebendo, o que é uma pena. Estou sóbrio há 16 anos e desde então tento recompensar a minha ausência. Todos os dias mando algo para o Marinho, sempre estamos conversando, mas ele já me disse algumas vezes que queria ter recebido um pouco mais de conforto quando era mais novo”, relata o pai.
“Eu não tinha conforto para dar a ele. Quando olho para trás, vejo que faria tudo diferente. Mas, como só posso olhar para frente, vejo que poderia ajudar outros garotos humildes a terem chance no futebol. Quem sabe um dia eu possa ter meu campo para formar esses meninos?”, completa.
Em Penedo, pelo menos antes do jogo, não haverá festa no sábado. Segundo Eliene, o dia será para fazer orações para uma boa partida do filho.
A rebeldia de menino continua no adulto santista, “mas com mais cabeça”, nas palavras dela.
Pelo menos nos pensamentos dos pais, a melhor hora para Marinho voltar para a cidade pode estar perto. Quem sabe com um troféu debaixo do braço e aclamado em todo o país.

Josué seixas – folha press

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